São Vicente Pallotti, a festa e o Oitavário da Epifania: uma intuição profética para a Igreja
- Província São Paulo Apóstolo

- há 3 dias
- 4 min de leitura
"Seu objetivo era claro: renovar a vida cristã do povo, aprofundar a fé católica e despertar o zelo apostólico."
A espiritualidade e a ação apostólica de São Vicente Pallotti encontram, no Oitavário da Epifania, uma de suas expressões mais luminosas e significativas. Os escritos do fundador, reunidos nos Documentos da Fundação, bem como os comentários do Pe. Josef Zweifel, SAC, e de outros estudiosos palotinos, revelam a profundidade teológica e pastoral dessa celebração tão cara ao coração de Pallotti. Trata-se de uma intuição que nasce da contemplação do mistério de Cristo manifestado às nações e se transforma em vigorosa proposta evangelizadora para toda a Igreja.
Durante seu ministério no Colégio Urbano da Propaganda Fide, onde exerceu a função de diretor espiritual, Vicente Pallotti teve contato direto com a riqueza da universalidade eclesial. Naquele ambiente, a Solenidade da Epifania era celebrada com particular solenidade, incluindo a celebração da Eucaristia nos diversos ritos da Igreja Católica, sobretudo os ritos orientais: armênio, caldeu, sírio-maronita, grego, entre outros. Nos dias que se seguiam à solenidade, vivia-se a chamada “festa das línguas”, quando os alunos expressavam sua fé por meio de discursos, cânticos e poesias em suas línguas maternas, em honra do Menino Deus.
Essa experiência marcou profundamente Pallotti. Diante do presépio e do mistério da Epifania, ele reconheceu simbolicamente a própria missão da Igreja: levar a luz de Cristo a todos os povos. Como observa o Pe. Dorvalino Rubin, Pallotti contemplava nos Magos — vindos de terras distantes, guiados pela estrela — a imagem viva da vocação apostólica universal. Daí nasceu o desejo de transformar a oitava litúrgica da Epifania em um verdadeiro acontecimento popular e missionário, capaz de alcançar não apenas os fiéis mais assíduos, mas todo o povo de Roma. Assim surgiu, em 1836, o Oitavário da Epifania.

Ao assumir a reitoria da Igreja do Espírito Santo dos Napolitanos, em 1835, Pallotti deu forma concreta a esse ideal. Convocava os fiéis por meio de cartazes que anunciavam um “sagrado Oitavário em favor da propagação da fé” (cf. OOCC VI, 118-120). Seu objetivo era claro: renovar a vida cristã do povo, aprofundar a fé católica e despertar o zelo apostólico. Os relatos históricos testemunham uma participação surpreendente e crescente do povo romano. O episódio da visita do Papa Pio IX, impressionado com o grande número de comunhões distribuídas, revela tanto o alcance da iniciativa quanto a exigência interior de Pallotti, sempre desejoso de ir além.
A celebração do Oitavário era cuidadosamente preparada
também do ponto de vista simbólico e litúrgico. Um grande presépio, com os Magos em atitude de adoração, ocupava lugar central no espaço sagrado. Pallotti insistia que as imagens e ornamentos fossem simples, dignos e solenes, iluminados por abundantes velas e lampadários, para evidenciar que Cristo é a Luz que se manifesta ao mundo. A Epifania, assim celebrada, tornava-se um anúncio visível da salvação oferecida a todos os povos, superando fronteiras culturais, linguísticas e religiosas.
Essa dimensão universal levou Pallotti a desejar que o Oitavário não se restringisse a Roma. Sonhava vê-lo celebrado em todas as cidades, países e comunidades, como resposta aos anseios missionários da Igreja (cf. OOCC I, 349). O Pe. Stanislaw Stawicki sublinha com clareza que o Oitavário da Epifania está intimamente ligado à fundação da União do Apostolado Católico: ambos expressam o mesmo carisma e a mesma finalidade apostólica. Para Pallotti, o Oitavário deveria ser como um “clarim evangélico”, convocando todos — clérigos e leigos, religiosos e seculares — à cooperação na missão.
Essa proposta revelava-se particularmente profética em um contexto eclesial marcado por divisões e tensões. Como observa Stawicki, a Igreja do século XIX vivia polarizações entre correntes teológicas, estados de vida e tradições litúrgicas. Pallotti, porém, via na diversidade um dom e um chamado à comunhão. O Oitavário da Epifania tornou-se, assim, uma grande celebração da fraternidade católica, onde diferenças não eram apagadas, mas harmonizadas na unidade da fé e da caridade.
Essa mensagem mantém-se profundamente atual. Também hoje, a Igreja e a sociedade enfrentam riscos de polarizações e extremismos que dificultam o diálogo e obscurecem o essencial do Evangelho. Quando nos fechamos em posições rígidas, perdemos a capacidade de escutar o outro e de reconhecer a ação de Deus na diversidade. O cristianismo, recorda Bento XVI, nasce do encontro com uma Pessoa, Jesus Cristo, e não da adesão a ideologias. É a Palavra viva e encarnada que deve orientar nossas relações e escolhas.

Nesse horizonte, o carisma palotino continua a oferecer um caminho seguro. Ser palotino é ser sinal de unidade, construtor de pontes, promotor da cooperação e da comunhão. A “Unidade na Caridade”, tão desejada por São Vicente Pallotti, encontra no Oitavário da Epifania sua expressão litúrgica e pastoral mais eloquente. Nessa celebração, a Igreja se reconhece como um só Corpo, alimentado pela Palavra e pela Eucaristia, onde a diversidade se transforma em riqueza e a comunhão se torna testemunho.
Assim, à luz da Epifania, São Vicente Pallotti nos recorda que a força da Igreja não está na uniformidade, mas na unidade que brota de Cristo, “o único pão que partimos”, e que faz de todos nós um só corpo n’Ele.
Viva a festa da Epifania!
São Vicente Pallotti, rogai por nós!



Comentários